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Sociologia Independente
 


A periquita e a água suja - da corrupção policial às enchentes

 

Corrupção. Eu não poderia abordar este assunto de forma crítica e combativa sem antes assumir a minha, mesmo que não tão importante ou expressiva, experiência.

 

Na última postagem há longa data eu relatei exemplos meus de má conduta. Imagino que alguns leitores desta página também têm as suas histórias, em menor número e menos graves - mas porventura em bem maior número e mais graves.

 

Portanto proponho àqueles críticos mais vorazes um momento de reflexão e a coragem para divulgar os seus desvios também.

 

Para tratar uma ferida é preciso incialmente descobri-la.

 

 

 

  * * *

 

Não acredito que haja um policial civil do estado de  São Paulo que não tenha vivido a experiência do desvio de conduta, da corrupção. Se o agente público não participou diretamente da corrupção, ao menos tomou conhecimento da má conduta de um colega de profissão. Se não o denunciou, prevaricou e contribuiu para o ato criminoso.

 

Porém se o agente denuncia aquele que corrompe e não participa de esquemas de corrupção, este trabalha em favor da sociedade e do bem comum. É o agente que não utiliza o bem público em benefício próprio infringindo as leis e zela pelo cumprimento das mesmas.

 

Mas o que leva um agente público a desviar recursos públicos?

 

É dito que o salário do policial civil de São Paulo é o mais baixo da categoria em todo o país. Um vencimento em torno de 2 mil reais é o suficiente para um pai ou mãe de família cuidar de seus entes de maneira digna? Consideremos também que a esmagadora parte das famílias brasileiras vive com uma renda menor que essa.

 

Quando um candidato presta o concurso público para ingressar em alguma carreira policial, ele sabe antecipadamente o valor do vencimento. Poderia evitar então o dissabor de um salário desinteressante tentando ingressar numa outra carreira, seja pública ou não.

 

Vale então o motivo de receber um salário insuficiente para que um agente policial desvie recursos públicos para o próprio bolso, seja através de propinas, extorsões, negociatas e quaisquer tipos de delitos?

 

O combate à corrupção, em relação à polícia, passeia por algumas questões:

 

Questão de moral e de arbítrio do agente que terá que se relacionar num ambiente muitas vezes já contaminado com esquemas de corrupção. Estará em ocasiões diversas forçado hierarquicamente a prevaricar. Sua moral, seus valores de ética e integridade determinarão sua conduta;

 

Questão de fiscalização do órgão público, na figura da Corregedoria, e de outros órgãos, como o Ministério Público, que vigiem a própria Corregedoria.

 

Questão de ação do governo para investir em melhores vencimentos, em melhores condições de trabalho e em planos de carreira para os policiais.

 

 

O funcionário público que corrompe também pode agir motivado por uma raiva contra o Estado/patrão que não o acolhe devidamente, e contra uma sociedade que, a seu ver, não reconhece o seu trabalho. É a mesma motivação, porém, que leva cidadãos miseráveis a depredar patrimônios públicos, como ônibus e fachadas de prédios governamentais. Ambas são formas de vandalismo e de violência. Sim, em casos extremos e não raros, não é de se espantar que policiais ainda torturem cidadãos criminosos ou não em ruas escuras, em ambientes privados ou mesmo em delegacias.

 

Recentemente noticiou-se o caso da escrivã policial que foi revistada a força por policiais da Corregedoria após a suspeita de ter recebido dinheiro ilícito. A opinião pública dividiu-se entre o horror pela violência contra a integridade da mulher e entre o horror pela corrupção da funcionária pública.

 

O vídeo mostrou claramente a ferocidade na conduta dos policiais da Corregedoria da Polícia Civil e também a falta de ética, de preparo e de honestidade da policial que poderia ter apresentado a prova ilícita espontaneamente antes da iminente revista.

Outro vídeo circulado nos últimos dias tem a deputada Jaqueline Roriz ao lado do marido recebendo verba ilegal, 50 mil reais, para a sua campanha. Como manobra orientada por seu partido, por seus assessores e pela experiente família em assuntos semelhantes, a parlamentar se afastou da comissão especial da Câmara que discutirá a reforma política. Encerrou a sua nota de afastamento com as seguintes palavras: “Continuarei contribuindo com propostas que façam com que o país encontre mecanismos eleitorais ainda mais democráticos, que ajudem a minimizar as injustiças sociais do nosso Brasil”.

“Que ajudem a minimizar as injustiças sociais do nosso Brasil”! Um escândalo como esse de corrupção, comprovado e filmado, com uma nota de afastamento tremendamente cínica é o mesmo que arrancar à força as calças de toda uma sociedade que espera probidade de seus representantes.

Todo recurso no Brasil que é desviado dos cofres públicos diariamente para o benefício pessoal e em prejuízo do bem público coloca o país a uma distância enorme dos países que estão no topo em relação a qualidade de vida. Nestes países, os índices de corrupção também são baixíssimos.

 

Não é uma ousadia arriscar que o montante de dinheiro que sangra no país devido à corrupção seria, por exemplo, extremamente relevante para melhorar a infra-estrutura da sua maior cidade, São Paulo, que sofre com os problemas que decorrem das cotidianas enchentes.

 

A corrupção nas instituições públicas do Brasil é o fator que mais impede o desenvolvimento e a justiça social no país ao lado do desinteresse do governo em resolver de fato o problema da distribuição de renda e de propriedade.

 

 

 

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Escrito por farelomartinez às 22h46
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