Mulheres, sonhos e ondas
Minhas noites boas de sono não são comuns. Minhas noites de sono inesquecíveis são raras. Eu sei que tive uma na Nova Zelândia mas não lembro quando foi, não sei em que cama ou casa aconteceu. Uma sensação neste instante em que escrevo me diz que ela aconteceu. O que a faz inesquecível. Tive uma outra em Florianópolis que foi em janeiro de 2000 e sei que foi no Rio Vermelho na primeira noite daquela temporada. Tive também em São Paulo ao lado da mulher que fazia minhas pernas tremerem. Noite de sono inesquecível é um jato sem interrupção, sem sonho lembrado, terminada sem passarinhos ou luz do sol pelas frestas mas pela alma que emerge até o corpo ausente de qualquer dor ou memória. (...) Estive ao lado de uma namorada sentado num gramado da USP e naquela noite em que ela me fez matar aula de Teoria Política eu tive a sensação de que ficaríamos conversando por uma eternidade. O tempo ali parou, não pensava em desejar mais nada da vida naquele hiato. Estive ao lado de uma neozelandesa sentado num banco da praia de Mission Bay e naquela tarde ela me fez chegar na hora certa da aula de inglês e eu tive a sensação de que ficaríamos conversando por uma eternidade. O tempo ali parou, não pensava em desejar mais nada da vida naquele hiato. (...) Eu já sonhei que estava surfando. Num dos sonhos lembro que eu percebia a temperatura da água protetora e aconchegante como se eu ainda não tivesse sido gerado e repousasse no ventre materno. Ondas longas e as manobras feitas num silêncio e numa solidão eram perfeitas. Eu já surfei que estava sonhando. Num dos mares lembro que eu percebia a temperatura da água protetora e aconchegante como se eu ainda não tivesse certeza de estar acordado. Ondas que não lembro direito me deixaram na memória o cheiro da camisa de lycra e o sorriso e a gratidão por não estar sonhando. 5124
Escrito por farelomartinez às 21h20
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