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Sociologia Independente
 


Jesus, você está ocupado?

E daí? E daí nada.

 

Cada mês passado no exterior parece-me anos. Como andam as coisas pelo Brasil, pergunto aos meus pais, aos amigos. As mesmas de sempre.

 

“E daí? Daí nada” é a penúltima postagem da coluna de Eliane Cantanhêde na Folha de São Paulo. Sempre vejo sua indignação sobre a falta de ética na política nossa, sobre a impunidade de larápios funcionários públicos, sobre a falta de perspectiva de correções que extirpem a corrupção dos órgãos públicos brasileiros.

 

Por que somos tão tolerantes? Eu quero pensar se isso vem da nossa base religiosa cristã, se somos realmente condicionados há tanto tempo a oferecer a outra face. Que capacidade a nossa de perdoar, de esquecer, de não saber revidar! Amanhã morrerá um Paulo Maluf, será velado numa Assembléia Legislativa e muitos populares serão captados em lágrimas pelas lentes da imprensa.

 

Pessoas pobres têm sucumbido em filas de hospitais públicos quando recursos suficientes para a construção de novas alas, para a contratação e qualificação de profissionais, para a aquisição de equipamentos e materiais, são desviados para os bolsos de quem nos representa. De quem nos representa porque ainda confiamos que a democracia representativa ainda é o sistema mais justo que conhecemos, porque acreditamos que alguém pode nos salvar. Acreditamos num Lula, acreditamos num Barack, e ainda há quem acredite num Collor – e por isso hoje ele é senador. Temos vários Jesus por aí.

 

O Brasil têm o maior número de analfabetos da América. Bolívia é um país livre do analfabetismo e Paraguai ruma para o mesmo. Falamos dos analfabetos de fato, mais de 10% da nossa população adulta, pessoas que não sabem ler e escrever. Nesses recentes dados da UNESCO não são considerados os analfabetos funcionais, ou seja, aqueles que podem ler e escrever mas têm pouca capacidade para interpretar o que lêem, e em extensão mal escrevem e mal entendem o que ouvem. Dados do Ibope de 2005 revelaram que 3 entre 4 brasileiros são analfabetos funcionais.

 

Numa definição encontrada no Wikipédia, muitos analfabetos funcionais inclusive têm formação superior completa. Podemos suspeitar, entender até, porque o exame da OAB tem um índice de reprovação estrondoso e também porque nossas leis têm tantas brechas, porque somos tão frágeis para punir corruptos, porque não conseguimos reformar leis e códigos, porque encontramos tanta ferrugem num Código Penal.

 

Perdemos em toda América porque temos o maior número de analfabetos de fato. E temos também os analfabetos funcionais que votam sem uma colinha ou um instrutor, que anulam seus votos porque “querem que tudo se dane”, que votam num conhecido para vereador porque pensam em uma boquinha na administração pública, que vão se sensibilizar pelas próximas campanhas marqueteiras mostrando políticos que lutam até contra o câncer.

 

Na Nova Zelândia sei de brasileiros que forjam documentos, que falsificam extratos bancários para o departamento de Imigração. Sei de brasileiros que vendem narcóticos, que roubam ferramentas e materiais trabalhando em canteiros-de-obra. Sei de gente que não quer estudar e que paga para outro brasileiro, que entende melhor o idioma, tirar a sua carteira de motorista.

 

E daí? E daí nada. Nada acontece. Somos malandros, somos versáteis, damos um jeitinho sempre.

 

Alguns zombam de mim, dizem que estou ficando velho quando discuto isso. Quem reclama é chato, quem reclama é acusado de hipócrita, de demagogo. Quem desiste e foge desse sistema é fraco, é louco. Quem reclama esconde algum segredo podre.

 

 

 

 

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Escrito por farelomartinez às 23h05
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