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Sociologia Independente
 


Para as minhas sobrinhas Clara e Sophia

 

 

 

 

O tratamento

 

 

 

-- Malditos marqueteiros mentirosos!

 

O focinho de Farelo pesava cinquenta quilos sobre o tapete macio. Seus olhos se voltaram para Serena que deixava o mingau escorrer na camiseta preta do Metallica sentada no sofá vinho com as sandalinhas rosas flutuando a dois palmos do chão. Dolores largou a chupeta entre as pernas com o susto que levou.

 

-- No que você pensa quando frita essa omelete?

 

Mais uma vez tia Ruiva trovejou, entre um ronco e outro, de seu quarto escuro com a porta encostada. E as pequenas mais o pulguento na sala vizinha iluminada pelo canal 1 em alto volume.

 

Serena salta do seu conforto, rodopia diante dos dois com os lábios lambuzados e puxa Dolores pela mão.

 

-- Vem Pópis!

 

A boneca mordida sem cabelos ficou no chão e Farelo depois de longa espreguiçada seguiu as duas a caminho da cozinha fungando vez e outra a fralda de Dolores. Serena se esticou para alcançar a maçaneta que os levou para o quintal. O ar morno que abriga mentia sobre a vinda de chuva naquela noite toda estrelada. Uma cadente rasgou o infinito, outra fugaz passou.

 

-- Uau! – Brilharam os olhos de Serena e de Dolores.

 

Bolinhas prateadas, bolinhas azuladas e também umas vermelhas se aproximam caindo do nada, algumas espirram sobre o Passat 78 enferrujado e outras envolvem os três como um ciclone de algodão. Elas pulam e dançam e Farelo late e abana o rabo.

 

E então vem o primeiro demente desorientado procurando socorro, sai de trás do carro velho. E essa assistência das garotas sempre acontece nos céus sem nuvens das sextas-feiras.

 

-- Meninas, ralo meus joelhos no escuro de prédio em construção com as mãos no chão, de quatro como cachorro horas e horas. Ferramentas que gritam, que cortam, que amassam são minhas companheiras. Respiro suja poeira, sozinho. Demônios invadem minha cabeça e eu brigo com eles e depois dou ouvidos. Que louco eu sou! Odeio num minuto, me arrependo no seguinte. Não tem saída isso! Tem?

 

Mais um que chega:

 

-- Eu engano onde trabalho. Meus amigos me chamam para almoçar e digo que estou de regime. Quando eles se vão eu choro no vazio do escritório porque vendi meu vale-refeição para ajudar nas contas de casa. Tenho vergonha de falar. Fome, eu tenho fome! Abro a porcaria do pacote de bolacha água e sal e é só o que tenho.

 

Outro vem segurando uma calota e tremendo:

 

-- Hoje passei o cartão no caixa eletrônico e não pude tirar o pouco que tinha porque o mínimo de saque é 10. Vacilei como um zumbi por bom tempo, perambulei a tarde toda, e os ônibus lamberam as calçadas em alta velocidade e eu escolhendo o certo para o salto, para a última pancada. O fim, o fim, o fim...

 

E uma moça:

 

-- Não me olho no espelho, não me ajusto, sou feia e gorda, e não tenho namorado, nunca tive. Não quero ver ninguém nos dias de folga, só o meu quarto bagunçado e os bichos de pelúcia. Não gasto com nada e não junto dinheiro. Eu tenho depressão, é isso, eu tenho depressão. Aaaaargh!

 

Serena dá um beijo na bochecha de cada um. E diz:

 

-- Pópis, dá comidinha pra eles!

 

Dolores pega um bocado da ração de Farelo.

 

-- Tó! -- E aponta para eles.

 

 

 

 

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Escrito por farelomartinez às 08h23
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