O selador
Amarelo e com os olhos fundos nuns cabelos pretos escorridos com jeans sujos e rasgados agarrados nas pernas finas e curtas. Figura estranha e feia afugentando os rostos das belas mulheres que ele medonhamente reserva em sua memória para os instantes diários de prazer isolado com os olhos fechados e mão direita no torto membro perpendicular às costas estampadas na banheira. Pelas calçadas observa os mendigos e as mulheres e as lojas e os carros e o vento e o cheiro dos doces. Os joelhos cicatrizados tiraram a compaixão de seu peito. Ele já apanhou bastante de patrões, mulheres, familiares e companheiros de trabalho. Crianças não o sensibilizam, é dautônico para as flores, seus lábios não conhecem outros. Não o chamam pelo nome no trabalho e sua função é ridiculamente fácil e independente. Selador, assim é conhecido. Ele passa silicone para evitar infiltração de água nas janelas instaladas pela sua companhia. Toda manhã vai ao almoxarifado, pega as bisnagas suficientes de selante, uma espátula, panos e álcool. Marcha para os andares devidos e opera silenciosamente em seu autismo embora as ferramentas dos outros gritem para arranhar os tímpanos. Pouco abre a boca. Não compartilha o almoço, o arroz frio com bife na marmita é mastigado em qualquer canto sobre qualquer balde. Sozinho, sempre sozinho. Evita falar porque sabe que tem um hálito funesto. Nunca teve recurso e nem ciência para procurar um médico e acabar com essa moléstia. Ele nem sabe se isso vem das gengivas roxas e inchadas, dos dentes pardos pelo fumo ou do suco gástrico. O que ele descobriu outro dia é que sua saliva tem um poder corrosivo sobre o silicone que aplica. O alvo de sua cusparada se dissolve em coisa de dois dias. O metal da janela brilha onde antes era massa grudada. Quando isso percebeu riu como hiena, sentiu frio, depois calor, tremeu, deu socos no chão, envergonhou-se, voltou ao batente. E tudo andando como sempre, religiosamente o salário caindo nas quinzenas, os raros diálogos, as mulheres inacessíveis, o feio das ruas, o bonito despercebido, a magreza, o bafo, os olhos encaçapados. Sem motivo aparente resolveu sair pelos andares do prédio cuspindo em todas as juntas de janelas onde passara o silicone. Ninguém poderia notar uma ação tão estúpida naquele ambiente frenético e sujo. A cada dois passos tangendo as paredes uma cúspida. Foram alguns milhares, alguns dias. No domingo uma chuva monstruosa cerrou o céu do meio-dia com nuvens tão escuras como o silicone preto. Ele pouco comeu os restos do frango de dez dólares comprado na sexta. E as fotos de mulheres nuas das revistas mais baratas espalhadas pelo chão do banheiro. Sua felicidade egoísta, seu amor fechado. E as horas correndo, e a água indo pelo ralo. Pelo ralo do banheiro, pelas emendas das janelas também. Na segunda mais chuva, na terça idem, quarta o dilúvio. Quinta o vento e mais água. Dias e dias o céu chorando. Caído na banheira na outra semana esquecera que tinha um emprego. O prédio chorava num espetacular arco-íris com o sol refletido nos vidros azulados. Das calçadas as mulheres e os mendigos viam as janelas escorrendo num dia seco. E o patrão chorava pelo prejuízo ao lado do supervisor boquiaberto.
Escrito por farelomartinez às 07h52
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