Capacete
Anos atras estava numa poltrona confortavel no decimo-primeiro andar de uma multinacional. De costas para a sala vazia na hora do almoco. Ceu azul contra o espelho turvo do Rio Pinheiros. Via um projeto Cingapura cortinando a favela geminada num condominio de alto padrao. Gravata, solado de couro, papeis, computador, silencio. Substanciava processos para a defesa do corpo juridico. Agora a bermuda de surfista virou uniforme e a caneta marca meu nome nas ferramentas. E no alto, na borda do decimo-quinto andar sem janelas, com as pernas para o nada, sentado no chao, posso ouvir o neozelandes cantando “Vamo Sao Paulo, vamo Sao Paulo, vamo ser campeao!” Meu irmao Pepe comanda o portatil guindaste e nos somos bons naquilo que fazemos. Quando necessario damos pancadas, mostramos os caninos, somos precisos com as laminas e tratamos o preto silicone como Chantilly. Os ganchos dos coletes triscam e cantam como as esporas dos cowboys, as pesadas botas ja’ fazem parte do corpo. Nao e’ ruim trabalhar em obra e o meu preconceituoso machismo olha com desdem para os brasileiros que preferem lavar pratos ou cortar cebolas para os chefes de cozinha. Segunda-feira se aproxima e ‘as 7 da manha os capacetes cinzas valerao mais que muitos crachas.
Escrito por farelomartinez às 22h34
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