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Sociologia Independente
 


Talvez voltando ao Brasil

Na Nova Zelândia a taxa de desemprego é de 6,5%, as ruas arborizadas não têm papéis como flores. Poucos são os homicídios, muitos os suicídios – a monotonia da beleza enlouquece. Aqui não se vê pessoas miseráveis, esqueléticas, sujas, maltrapilhas, doentes, famintas, dementes vagando pelas ruas. Sempre foi muito triste ver pessoas assim perambulando pela minha cidade natal São Paulo.

 

A dificuldade do idioma me fez um ogro vezes e vezes. Não é engraçado ser chamado de inútil por não entender uma simples ordem de varrer o chão. A incompreensão me assustou. Não é confortável ter familiar apontando qualquer fraqueza e fracasso. E o silêncio de alguns amigos é um tiro na minha egoísta carência. Mas eu peço perdão aos familiares e amigos pela minha arrogância, comumente me fecho numa concha e não apareço para participar de suas vidas.

 

É preciso tempo para aprender a empregar força sem ser agressivo, para saber brigar sem alterar a pressão sangüínea. Ser frio sem perder a sensibilidade, entender rejeições e continuar esperançoso com o amor.

 

Meu cordão umbilical com o Brasil. Sinto nossa pobreza. Tenho a bandeira brasileira tatuada no braço, não digam que não sou patriota.

 

Só que um ano e meio fora do país é pouco para querer retornar. Falo melhor inglês e uma neozelandesa que conheço pode ser uma bóia no oceano ou pode ser um porto seguro. Algumas mulheres tiram meus pés do chão e eu nunca vou aprender os riscos que isso implica. As paixões me iludem, não tem jeito, eu transformo mulheres que gosto em heroínas. E mulheres que gostam de mim me assustam.

 

Eu não tenho medo de mudar minha opinião, minha direção. O que é previsível é minha imprevisibilidade. Alguns já me acharam pouco confiável, alguns não sabem quando sou sarcástico ou quando sou reto. Tenho uma passagem aérea marcada para o Brasil e posso desmarcá-la em breve dependendo se amanhã fará sol ou chuva. Sou imprudente com o futuro, não acho.

 

Perspectiva sobre o Brasil, perguntou-me meu primo Milton Bellintani. Nosso país poderia ser diferente, mais justo, mais organizado. Menos violento, corrupto, poluído, degradado, surrupiado. Como é a Nova Zelândia. Precisamos ser um povo mais consciente, inteligente, menos fascinado pelas porcarias enlatadas vendidas pela mídia que nos mantêm amansados. Precisamos aprender a dizer não, precisamos coragem nas ações dos dia-a-dia. Um exemplo, se o seu patrão não lhe paga horas-extras, processe-o. Eu ganhei nos tribunais contra a Nestlé uma luta que levou mais de sete anos. Você come um gostoso chocolate e não imagina que muitos trabalhadores sofreram no processo para a sua doce degustação, que alguns enlouqueceram, que alguns se viciaram em tarjas pretas. E a mídia diz que são apenas efeitos comuns das pressões sociais dos ambientes cada vez mais competitivos, que é normal ficar doente, estressado. Ou seja, trabalhe como um escravo, aguente o injusto salário e finja que tudo está bem trancado no seu carro, no congestionamento de horas, ouvindo música alta e escondendo sua forçada alegria sob os vidros filmados (e com medo de ser assaltado).

 

Diga não aos políticos sujos que carregam processos em suas costas, consulte jornais antes das eleições. Relembrará quais são os imprestáveis. Sobre mídia, assista menos televisão, tenha ciência para saber que um programa CQC também é uma besteira, que eles não o libertarão de nada, que são preconceituosos mimados filhinhos de papai brincando com seus estilingues. Não ria como um otário de um Casseta & Planeta que não passa de um Vídeo Show pornochanchada divulgando de forma diferente a programação Global. E se você acompanha Pânico, meus pêsames. Assista ao Provocações, ao Café Filosófico, ao Entrelinhas e os ache umas chatices de vez em quando. Porque eles são maçantes e muitos intelectuais não sabem se expressar para a maioria mas não são superficiais e fazem bem à inteligência. Os canais abertos por aqui também passam programas cretinos, porém uma Sky é bem acessível e a opção por atrações melhores aumenta.

 

Até o próximo texto, caros leitores, que talvez será feito em terras brasileiras.

 

 

5287

 

 



Escrito por farelomartinez às 06h43
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Nota de falecimento

O filho está na escola brincando porque é o recreio. Na lancheira pão com manteiga, queijo e presunto, uma barra de chocolate, uma garrafinha com leite achocolatado. As crianças correndo, uma bola passando, seus gritos indefinidos abafam qualquer tristeza individual.

 

A mãe na cozinha preparando o almoço, uma faca afiada, batatas, cebolas, cabeças de alho. Rádio e música. Seu silêncio, uma panela com água fervente. A televisão muda.

 

11 da manhã, o pai está estatelado e morto porque caiu do segundo andar da obra.

 

Ninguém viu, ningúem sabe como foi. É fato que não usava equipamentos adequados de segurança e falo que nenhum inspetor da construtora passara antes para adverti-lo sobre qualquer procedimento arriscado. Não puderam ressuscitar o homem que ninguém sabia o nome. Puseram um lençol para esconder a cabeça quebrada do homem que ninguém sabia se tinha família. Ninguém o conhecia, nem a construtora o identificava. Apenas souberam que ele era um soldador.

 

Uma nota da imprensa disse que ele tinha 50 anos. O porta-voz da construtora disse que lamenta a tragédia do anônimo.

 

Alguns amigos do Brasil sabem agora que trabalhador pobre morre na Nova Zelândia enquanto executivos de uma importante construtora do país chamada Hawkins de seus camarotes do outro lado da rua com ar-condicionado e poltronas macias observam outros operários sujeitos ao mesmo destino.

 

Espero que sua família de alguma maneira encontre conforto e que sua alma repouse em paz.

 

 

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Escrito por farelomartinez às 02h22
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Mulheres, sonhos e ondas

 

Minhas noites boas de sono não são comuns. Minhas noites de sono inesquecíveis são raras. Eu sei que tive uma na Nova Zelândia mas não lembro quando foi, não sei em que cama ou casa aconteceu. Uma sensação neste instante em que escrevo me diz que ela aconteceu. O que a faz inesquecível. Tive uma outra em Florianópolis que foi em janeiro de 2000 e sei que foi no Rio Vermelho na primeira noite daquela temporada. Tive também em São Paulo ao lado da mulher que fazia minhas pernas tremerem.

 

Noite de sono inesquecível é um jato sem interrupção, sem sonho lembrado, terminada sem passarinhos ou luz do sol pelas frestas mas pela alma que emerge até o corpo ausente de qualquer dor ou memória.

 

(...)

 

Estive ao lado de uma namorada sentado num gramado da USP e naquela noite em que ela me fez matar aula de Teoria Política eu tive a sensação de que ficaríamos conversando por uma eternidade. O tempo ali parou, não pensava em desejar mais nada da vida naquele hiato.

 

Estive ao lado de uma neozelandesa sentado num banco da praia de Mission Bay e naquela tarde ela me fez chegar na hora certa da aula de inglês e eu tive a sensação de que ficaríamos conversando por uma eternidade. O tempo ali parou, não pensava em desejar mais nada da vida naquele hiato.

 

(...)

 

Eu já sonhei que estava surfando. Num dos sonhos lembro que eu percebia a temperatura da água protetora e aconchegante como se eu ainda não tivesse sido gerado e repousasse no ventre materno. Ondas longas e as manobras feitas num silêncio e numa solidão eram perfeitas.

 

Eu já surfei que estava sonhando. Num dos mares lembro que eu percebia a temperatura da água protetora e aconchegante como se eu ainda não tivesse certeza de estar acordado. Ondas que não lembro direito me deixaram na memória o cheiro da camisa de lycra e o sorriso e a gratidão por não estar sonhando.

 

 

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Escrito por farelomartinez às 21h20
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Chávez, Michael Jackson e futebol

Hugo Chávez chega a ser engraçado. Chamou em seu programa de rádio o Ministro da Defesa da Colômbia de retardado mental. Gabriel Silva considera ineficaz a postura da Venezuela sobre o combate ao narcotráfico. Com linguagem popular e sem pompa, Chávez em outras oportunidades ligou o ex-presidente Bush ao capeta. Nada polido mas coerente.

 

A Colômbia permite aos Estados Unidos a presença de tropas militares em seu território, o que para Chávez (e para mim também) é uma afronta à soberania dos Estados sul-americanos. A ONU aponta que 40%  da cocaína colombiana que entra na Europa passa por terras venezuelanas. E aí, confiamos na imparcialidade de um relatório feito por uma organização que é aliada a diversos interesses ianques?

 

Chávez não é um bom exemplo para o ideal de democracia norte-americano.

 

(Fonte: Folhaonline – 25/10/2009)

 

(...)

 

Eu tenho dúvidas sobre a morte de Michael Jackson. Eu não sei se um homem negro consegue virar branco então vejo a possibilidade do astro ter morrido há muitos anos. Aquele branquelo que vinha dançando não era o Michael de Thriller. Era outro cara.

 

Para quê caixão lacrado e sepultamento não televisionado?

 

“Mataram” ele aos cinquenta anos de idade e na mesma semana lançaram um álbum!

 

Acreditar em Michael Jackson é acreditar que o homem pisou na lua.

 

(...)

 

 

Futebol.

 

Este será o Brasileirão por pontos corridos onde o campeão terá a menor soma. Isso se justifica pelo maior equilíbrio entre as equipes. A sete rodadas do final cinco ou seis clubes têm chances reais, outros ainda matemáticas.

 

O São Paulo que detém o título está louco para entregá-lo ao Palmeiras. Quando pôde passá-lo vacilou. Mas o alvi-verde quando teria que se distanciar mostrou que não tem elenco suficiente que aguente até o término da temporada.

 

Goiás pifou, normal. O Inter de Porto Alegre é forte e ameaça, tem um confronto direto com o São Paulo no Morumbi. Parada dura para os gaúchos. Atlético mineiro, como disse um amigo meu, é um Botafogo do Rio. Será mesmo que é só isso? E o Flamengo ascendendo vê os outros cariocas indo para a segundona. Vergonha para o Rio.

 

Futebol é traço saliente na nossa cultura reconhecido em qualquer canto do mundo. Insensatos aqueles que dizem que o povo é idiota porque valoriza tanto esse esporte, que somos atrasados quando festejamos, que o futebol entorpece e nos mantém alienados. Besteira.

 

5074

 



Escrito por farelomartinez às 21h44
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Desemprego

Você é um dos novos desempregados da crise financeira global? Bem-vindo ao clube!

E aí, enquanto trabalhava tinha algum poder nas mãos? Mandava? Ameaçava os subordinados? E agora o fantasma do desemprego dorme ao seu lado...

Há!Há!Há!

 

Rápido! Seus filhos podem chorar de fome!

E o aluguel vai vencer! E o carnê das Casas Bahia também!

Deus! O oficial de justiça vai buscar o seu Astra 2008!

Há!Há!Há!

 

Socorro, Obama! Socorro!

 

Sua mulher vai te largar e você beber cada vez mais. Seus amigos o estranharão e as fofocas aumentarão.

O cara fracassou, coitado!

E não tem saída. Você não vê saída.

 

Ganhava 4000. Agora 1200. Hunf!

E sua filha só tem 12 anos. Ainda é cedo para um bom casamento.

A magreza, a barba, os cabelos caindo e o restante ficando branco, as olheiras, as solas furando. O gerente do banco não te atende mais.

 

Acabou o CK One? Não!!!

Mãe, posso voltar pra casa?

Há!Há!Há!

 

Por quê, Deus? Por quê?

E você nunca vai revelar que pensou em suicídio.

 

 

 

5004



Escrito por farelomartinez às 21h53
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Acesso 5000 - seleção de textos

Os 15 textos mais comentados desde março de 2007. Para vê-los clique no quadro à esquerda no período equivalente.

 

 

Cartas de Amor – 31/03/2007

 

Nobres Mendigos – 26/06/2007

 

Chocolate amargo – 19/07/2007

 

Duda – 17/08/2007

 

Vagão – 10/09/2007

 

Suzana – 26/09/2007

 

Mosca – 08/11/2007

 

O sonho de Valadão – 10/12/2007

 

Outside – 11/03/2008

 

Um sociólogo no andaime – 23/06/2008

 

Ponto final – 09/08/2008

 

Martelada – 23-08-2008

 

O selador – 22/05/09

 

O tratamento – 08/07/2009

 

O que você fez – 16/08/2009



Escrito por farelomartinez às 21h50
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Não quero pensar

 

Pensar diferente

Quero pensar sem política, sociologia, meio-ambiente, mundo, Brasil, sociedade

Família, violência, amor, carência

Pensar sem música, quero pensar sem rock

Quero pensar sem letras e palavras

Pensar sem escrever

 

Quero pensar sem Deus, ou sem deus

Não quero pensar na mulher que salvará minhas angústias

Não quero pensar em salvação

 

Não quero pensar em trabalho,

Em dinheiro, contas, carreira

 

Não quero pensar em futuro

Não quero lembrar o passado

Não quero comparar

 

Não quero pensar em ondas

Nem quero pensar na morte

E nem na vida

 

Não quero poesia

Não quero ser escritor

 

Não quero protestar

Não quero me preocupar

Não quero defender ninguém

 

Não quero a justiça

Nem a igualdade

 

Deixa eu pensar que é possível não ter sentimento

 

Deixa eu pensar que eu não estou vivo

E que vocês não existem

 

Não sou frio e nem quente

Feliz ou infeliz

Brilhante ou opaco

 

Eu não quero pensar

Não quero perceber as coisas

Não quero esperar nada

Não quero saber quem é você

 

Eu não sei quem eu sou

Você não sabe quem eu sou

E você pensa que você sabe quem é

 

Não há mudança

Política, sociologia, amor, violência

Corrupção, mundo

Mulheres

Prazer, ondas

 

Não sei, não sei

 

Não sei o que falta

O que falta

Nada falta na ausência

 

Eu quero pensar

Ou eu não quero pensar

 

Eu me confundo

Minhas incoerências

Minha arrogância

 

 

4792



Escrito por farelomartinez às 03h54
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Jesus, você está ocupado?

E daí? E daí nada.

 

Cada mês passado no exterior parece-me anos. Como andam as coisas pelo Brasil, pergunto aos meus pais, aos amigos. As mesmas de sempre.

 

“E daí? Daí nada” é a penúltima postagem da coluna de Eliane Cantanhêde na Folha de São Paulo. Sempre vejo sua indignação sobre a falta de ética na política nossa, sobre a impunidade de larápios funcionários públicos, sobre a falta de perspectiva de correções que extirpem a corrupção dos órgãos públicos brasileiros.

 

Por que somos tão tolerantes? Eu quero pensar se isso vem da nossa base religiosa cristã, se somos realmente condicionados há tanto tempo a oferecer a outra face. Que capacidade a nossa de perdoar, de esquecer, de não saber revidar! Amanhã morrerá um Paulo Maluf, será velado numa Assembléia Legislativa e muitos populares serão captados em lágrimas pelas lentes da imprensa.

 

Pessoas pobres têm sucumbido em filas de hospitais públicos quando recursos suficientes para a construção de novas alas, para a contratação e qualificação de profissionais, para a aquisição de equipamentos e materiais, são desviados para os bolsos de quem nos representa. De quem nos representa porque ainda confiamos que a democracia representativa ainda é o sistema mais justo que conhecemos, porque acreditamos que alguém pode nos salvar. Acreditamos num Lula, acreditamos num Barack, e ainda há quem acredite num Collor – e por isso hoje ele é senador. Temos vários Jesus por aí.

 

O Brasil têm o maior número de analfabetos da América. Bolívia é um país livre do analfabetismo e Paraguai ruma para o mesmo. Falamos dos analfabetos de fato, mais de 10% da nossa população adulta, pessoas que não sabem ler e escrever. Nesses recentes dados da UNESCO não são considerados os analfabetos funcionais, ou seja, aqueles que podem ler e escrever mas têm pouca capacidade para interpretar o que lêem, e em extensão mal escrevem e mal entendem o que ouvem. Dados do Ibope de 2005 revelaram que 3 entre 4 brasileiros são analfabetos funcionais.

 

Numa definição encontrada no Wikipédia, muitos analfabetos funcionais inclusive têm formação superior completa. Podemos suspeitar, entender até, porque o exame da OAB tem um índice de reprovação estrondoso e também porque nossas leis têm tantas brechas, porque somos tão frágeis para punir corruptos, porque não conseguimos reformar leis e códigos, porque encontramos tanta ferrugem num Código Penal.

 

Perdemos em toda América porque temos o maior número de analfabetos de fato. E temos também os analfabetos funcionais que votam sem uma colinha ou um instrutor, que anulam seus votos porque “querem que tudo se dane”, que votam num conhecido para vereador porque pensam em uma boquinha na administração pública, que vão se sensibilizar pelas próximas campanhas marqueteiras mostrando políticos que lutam até contra o câncer.

 

Na Nova Zelândia sei de brasileiros que forjam documentos, que falsificam extratos bancários para o departamento de Imigração. Sei de brasileiros que vendem narcóticos, que roubam ferramentas e materiais trabalhando em canteiros-de-obra. Sei de gente que não quer estudar e que paga para outro brasileiro, que entende melhor o idioma, tirar a sua carteira de motorista.

 

E daí? E daí nada. Nada acontece. Somos malandros, somos versáteis, damos um jeitinho sempre.

 

Alguns zombam de mim, dizem que estou ficando velho quando discuto isso. Quem reclama é chato, quem reclama é acusado de hipócrita, de demagogo. Quem desiste e foge desse sistema é fraco, é louco. Quem reclama esconde algum segredo podre.

 

 

 

 

4715

 

 



Escrito por farelomartinez às 23h05
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Morte sem verbo

 

O nada claro no quarto do sábado fúnebre. Braços paralelos pesados com doloridas chagas e o nariz para o teto, cinza o teto.

 

Na cama o lado esquerdo, o direito vazio. Os maus sonhos, os olhos abertos.

 

Mulher no carpete azul, camiseta velha e só. Longas pernas nuas, cabelos castanhos encaracolados, rosto salpicado laranja, lábios rosados, o relevo dos seios na camiseta velha, na camiseta velha e só.

 

Tempo igual, tempo parado, porta fechada, oxigênio minguante. Morte esperada para uma vida morta e a mulher, a mulher no chão.

 

Sem perfume, brilho, flores, luzes. Sem passos, caminho, nuvens. Sem temperaturas, sem ancestrais e sem música.

 

Os olhos acesos da mulher, o carpete abandonado e o lado direito da cama, o lado direito da cama ocupado.

 

Maus sonhos acabados com os olhos cerrados. E os cabelos rebeldes repousados no há muito peito calado.

 

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Escrito por farelomartinez às 03h11
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O que você fez

 

Me deixa colocar no papel o que você está fazendo comigo

Porque algo está errado e eu não sou tão duro quanto penso que sou

Eu quero admitir que mais uma vez me iludo

E não, não pode estar acontecendo

 

Não me responda mais

Alimentando minhas fantasias

Sei que estou enganado, acho que estou enganado

E algo me diz que não, não estou enganado

 

Suas cores e seus sorrisos

E eu não sei nada

 

Eu quero água e mais, e mais ar

E o seu sorriso

As suas palavras

Suas cores

 

Me deixa sair daqui

Me deixa correr daqui de dentro de mim

Me dá o seu ar

A um dedo do meu nariz

 

Não, acenda a luz porque não quero me perder

Me acorda e saia

Saia você

Corra daqui de dentro de mim

 

Volta, não sei o que estou dizendo

Esqueça tudo que disse antes

Não estou enganado, não

Você chegou porque tinha que ser

 

E eu sei tudo

Esperava que isso acontecesse

Era só o tempo que, que...

Só estou, só fiquei um pouco assustado

 

Apaga a luz e não saia mais daqui

Porque meu peito precisa do seu peso

E não me deixa acordar

Não saia, não saia do meu sonho

 

Não saia do meu sonho

Não entra na minha vida

Porque eu não quero vê-la sair

 

E você não vai saber dessas palavras

Não sabe o que está fazendo comigo

Se alguém lhe falar delas não dá ouvidos

 

Não, não leia, deixa assim, assim

 

Não, não, não

Leia, leia... sim, leia

E venha rápido, e saia do meu sonho

Eu quero admitir que mais uma vez me engano

Mas não consigo e nada está errado, não sou tão duro assim

 



Escrito por farelomartinez às 09h14
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Sophia

Recessivos são os olhos

De uma estrela

Cujo brilho domina

 

Sophia é a prova

De que todo caos e desordem

São apenas partes de um processo

Regido por um universo perfeito e sincrônico

 

Sophia é a prova

De que as coisas

Estavam

E estão

Certas

 

Ela é uma prova

De que valem os joelhos no chão

De que valem as discussões

Que aparam para os pontos justos

 

Sophia não chora

Sophia mia

 

Sexta 31, do mês 7

No quarto 1

 

Sophia não tem um amigo leão por acaso

Sophia não tem a família que tem por acaso

Sophia não tem sangue brasileiro por acaso

Sophia não tem coração neozelandes por acaso

 

Sophia escolheu

Sophia escolhe

 

 

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Escrito por farelomartinez às 05h31
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Para as minhas sobrinhas Clara e Sophia

 

 

 

 

O tratamento

 

 

 

-- Malditos marqueteiros mentirosos!

 

O focinho de Farelo pesava cinquenta quilos sobre o tapete macio. Seus olhos se voltaram para Serena que deixava o mingau escorrer na camiseta preta do Metallica sentada no sofá vinho com as sandalinhas rosas flutuando a dois palmos do chão. Dolores largou a chupeta entre as pernas com o susto que levou.

 

-- No que você pensa quando frita essa omelete?

 

Mais uma vez tia Ruiva trovejou, entre um ronco e outro, de seu quarto escuro com a porta encostada. E as pequenas mais o pulguento na sala vizinha iluminada pelo canal 1 em alto volume.

 

Serena salta do seu conforto, rodopia diante dos dois com os lábios lambuzados e puxa Dolores pela mão.

 

-- Vem Pópis!

 

A boneca mordida sem cabelos ficou no chão e Farelo depois de longa espreguiçada seguiu as duas a caminho da cozinha fungando vez e outra a fralda de Dolores. Serena se esticou para alcançar a maçaneta que os levou para o quintal. O ar morno que abriga mentia sobre a vinda de chuva naquela noite toda estrelada. Uma cadente rasgou o infinito, outra fugaz passou.

 

-- Uau! – Brilharam os olhos de Serena e de Dolores.

 

Bolinhas prateadas, bolinhas azuladas e também umas vermelhas se aproximam caindo do nada, algumas espirram sobre o Passat 78 enferrujado e outras envolvem os três como um ciclone de algodão. Elas pulam e dançam e Farelo late e abana o rabo.

 

E então vem o primeiro demente desorientado procurando socorro, sai de trás do carro velho. E essa assistência das garotas sempre acontece nos céus sem nuvens das sextas-feiras.

 

-- Meninas, ralo meus joelhos no escuro de prédio em construção com as mãos no chão, de quatro como cachorro horas e horas. Ferramentas que gritam, que cortam, que amassam são minhas companheiras. Respiro suja poeira, sozinho. Demônios invadem minha cabeça e eu brigo com eles e depois dou ouvidos. Que louco eu sou! Odeio num minuto, me arrependo no seguinte. Não tem saída isso! Tem?

 

Mais um que chega:

 

-- Eu engano onde trabalho. Meus amigos me chamam para almoçar e digo que estou de regime. Quando eles se vão eu choro no vazio do escritório porque vendi meu vale-refeição para ajudar nas contas de casa. Tenho vergonha de falar. Fome, eu tenho fome! Abro a porcaria do pacote de bolacha água e sal e é só o que tenho.

 

Outro vem segurando uma calota e tremendo:

 

-- Hoje passei o cartão no caixa eletrônico e não pude tirar o pouco que tinha porque o mínimo de saque é 10. Vacilei como um zumbi por bom tempo, perambulei a tarde toda, e os ônibus lamberam as calçadas em alta velocidade e eu escolhendo o certo para o salto, para a última pancada. O fim, o fim, o fim...

 

E uma moça:

 

-- Não me olho no espelho, não me ajusto, sou feia e gorda, e não tenho namorado, nunca tive. Não quero ver ninguém nos dias de folga, só o meu quarto bagunçado e os bichos de pelúcia. Não gasto com nada e não junto dinheiro. Eu tenho depressão, é isso, eu tenho depressão. Aaaaargh!

 

Serena dá um beijo na bochecha de cada um. E diz:

 

-- Pópis, dá comidinha pra eles!

 

Dolores pega um bocado da ração de Farelo.

 

-- Tó! -- E aponta para eles.

 

 

 

 

4438

 



Escrito por farelomartinez às 08h23
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O selador

Amarelo e com os olhos fundos nuns cabelos pretos escorridos com jeans sujos e rasgados agarrados nas pernas finas e curtas. Figura estranha e feia afugentando os rostos das belas mulheres que ele medonhamente reserva em sua memória para os instantes diários de prazer isolado com os olhos fechados e mão direita no torto membro perpendicular às costas estampadas na banheira.

Pelas calçadas observa os mendigos e as mulheres e as lojas e os carros e o vento e o cheiro dos doces. Os joelhos cicatrizados tiraram a compaixão de seu peito. Ele já apanhou bastante de patrões, mulheres, familiares e companheiros de trabalho. Crianças não o sensibilizam, é dautônico para as flores, seus lábios não conhecem outros.

Não o chamam pelo nome no trabalho e sua função é ridiculamente fácil e independente. Selador, assim é conhecido. Ele passa silicone para evitar infiltração de água nas janelas instaladas pela sua companhia. Toda manhã vai ao almoxarifado, pega as bisnagas suficientes de selante, uma espátula, panos e álcool. Marcha para os andares devidos e opera silenciosamente em seu autismo embora as ferramentas dos outros gritem para arranhar os tímpanos. Pouco abre a boca. Não compartilha o almoço, o arroz frio com bife na marmita é mastigado em qualquer canto sobre qualquer balde. Sozinho, sempre sozinho. Evita falar porque sabe que tem um hálito funesto. Nunca teve recurso e nem ciência para procurar um médico e acabar com essa moléstia. Ele nem sabe se isso vem das gengivas roxas e inchadas, dos dentes pardos pelo fumo ou do suco gástrico.

O que ele descobriu outro dia é que sua saliva tem um poder corrosivo sobre o silicone que aplica. O alvo de sua cusparada se dissolve em coisa de dois dias. O metal da janela brilha onde antes era massa grudada. Quando isso percebeu riu como hiena, sentiu frio, depois calor, tremeu, deu socos no chão, envergonhou-se, voltou ao batente.

E tudo andando como sempre, religiosamente o salário caindo nas quinzenas, os raros diálogos, as mulheres inacessíveis, o feio das ruas, o bonito despercebido, a magreza, o bafo, os olhos encaçapados. Sem motivo aparente resolveu sair pelos andares do prédio cuspindo em todas as juntas de janelas onde passara o silicone. Ninguém poderia notar uma ação tão estúpida naquele ambiente frenético e sujo. A cada dois passos tangendo as paredes uma cúspida. Foram alguns milhares, alguns dias.

No domingo uma chuva monstruosa cerrou o céu do meio-dia com nuvens tão escuras como o silicone preto. Ele pouco comeu os restos do frango de dez dólares comprado na sexta.
E as fotos de mulheres nuas das revistas mais baratas espalhadas pelo chão do banheiro. Sua felicidade egoísta, seu amor fechado. E as horas correndo, e a água indo pelo ralo. Pelo ralo do banheiro, pelas emendas das janelas também. Na segunda mais chuva, na terça idem, quarta o dilúvio. Quinta o vento e mais água. Dias e dias o céu chorando.

Caído na banheira na outra semana esquecera que tinha um emprego. O prédio chorava num espetacular arco-íris com o sol refletido nos vidros azulados. Das calçadas as mulheres e os mendigos viam as janelas escorrendo num dia seco. E o patrão chorava pelo prejuízo ao lado do supervisor boquiaberto.

 



Escrito por farelomartinez às 07h52
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Absorvendo pancada

“Você e o seu oponente são um só. Há uma relação de coexistência entre vocês. Você coexiste com seu oponente e torna-se complemento dele, absorvendo-lhe os ataques e usando a força dele para vencê-lo” -  Bruce Lee

 

A porta do banheiro segurei gentilmente para um aluno entrar antes de mim. O garoto não agradeceu, nem sequer olhou na minha cara. Conheci professor arrogante e cretino e também outro desonesto que fugia das aulas passando suas turmas para os mestrandos. Na USP aprendi que sociólogo pode ser egoísta, capitalista, social-democrata, hipócrita, maldoso.

Não sou como essa gente e por isso falo no blog o que penso e ninguém o acessa por obrigação. Nenhuma instituição castra minha imaginação e os leitores de Sociologia Independente são convidados a se expressar como quiserem.

Isto não é um diário. Nem tudo que escrevo realmente vi acontecer. Encontro ainda disfaces em terceiras pessoas. Eu quero provocar você enquanto satisfaço esse vício de pegar a caneta e rasgar palavras no papel ouvindo rock and roll. Alterno contos, poesias e críticas de assuntos cotidianos para voltar sempre ao tema “exploração no trabalho”. Sei que essa é a principal missão minha como escritor nessa página.

Passei um bom tempo na margem distanciando-me bastante das relações de trabalho, vivi outros bons anos em algumas empresas no Brasil. Hoje, na Nova Zelândia, estou numa das melhores companhias que instala painéis em edifícios de grande porte. E com os joelhos na borda do décimo-nono andar discuto planos de recursos humanos com meu irmão Pepê, quando as ferramentas barulhentas se calam. E uma das pautas foi outro dia: seja muito bom naquilo que faz e aprenda a absorver as pancadas para poder bater em boa proporção.

Atuar no front da construção civil é um grande laboratório, são tantas as agressões contra o corpo, cortes, pancadas, torções, queimaduras, que uma hora o fortalecimento chega. Em certo instante a martelada no dedo provoca até riso e alguns cortes são comparados por beleza.

Algo me remete aos tempos do Kung-Fu de Bruce Lee: a maturidade de um homem aparece quando ele aprende a lutar com frieza, pouco alterando os batimentos cardíacos, serenamente mantendo a boa respiração. Difícil apanhar lutando com calma, não é preciso gritar para a voz sair como um trovão.

Alie confiança e capacidade de absorção de impacto à refinada precisão técnica que os seus superiores hierárquicos não poderão ameaça-lo. Ao contrário do que dizem, pessoas boas não são substituídas facilmente.

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Escrito por farelomartinez às 08h25
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Seu chefe vai morrer

Quando foi a ultima bronca que levou de seu chefe, que os olhos odiosos o trataram com desprezo, que as acidas palavras e as salivas raivosas o chamaram de desmotivado? Lembra?

“Ordens dadas, ordens executadas. Ou faz direito ou vai perder seu emprego, bastardo! Aprenda a trabalhar sistematicamente!”

E ai’ voce descobre que ontem o Doutor Finger detectou algo suspeito na prostata dele...

Diabolicamente voce pensa “bem feito, idiota!”

Mas a moral crista o puxa para a indulgencia, para o remorso. Seu chefe apenas cumpria o papel de lider primando pela boa produtividade e pelo retorno do investimento feito em seu colaborador. Ferramentas inuteis sao descartadas, e’ assim. Voce sabe que faria o mesmo gozando de poder... O halito enxofrado do carrasco embora nojento o seduz.

Tantas vezes pisado, humilhado, o que nao o mata pode fortalece-lo. E nao e’ por causa das ameacas constantes que agora vai rir da desgraca dele.

Vai?



Escrito por farelomartinez às 06h38
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